Quando a guerra nuclear quase estourou em 1962, ninguém estava rindo
Na verdade, parte de mim se alegra ao constatar a indiferença dos jovens com o arsenal nuclear, porque isso mostra quanto caminhamos desde que os Estados Unidos bombardearam Hiroshima e Nagasaki, dando início à era nuclear. Nasci em 1953 e cresci com medo de que a qualquer momento a guerra pudesse aniquilar não apenas minha família e a mim, mas toda a humanidade. Os professores nos ensinaram a andar – e não correr – para o porão da escola ao ouvir a sirene. Se estivéssemos na classe e víssemos um grande clarão do lado de fora da janela, deveríamos desviar o olhar imediatamente para proteger os olhos da radiação e o rosto do vidro. Nosso professor de ciências nos informou sobre os raios gama, os raios X e outros tipos de radiação emitidos por uma explosão nuclear. Ele desenhou círculos em um mapa que tinha Nova York como o marco zero, indicando as zonas de radiação de diferentes armas, desde as pequenas bombas de fissão como o Fat Man, que destruiu Nagasaki, até suas colossais sucessoras de fusão, milhares de vezes mais poderosas. O fi lme Dr. Fantástico, de 1964, cujo subtítulo era Como aprendi a deixar de me preocupar e a amar a bomba, via o Armagedon como a piada suprema. Mas quando a guerra nuclear quase aconteceu durante a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, ninguém estava rindo. A ansiedade nuclear reapareceu no início dos anos 80, quando Ronald Reagan aumentou o arsenal dos Estados Unidos enquanto denunciava a União Soviética como um “império do mal”. Em seu best-seller O destino da Terra, de 1982, Jonathan Schell desenhou os prováveis efeitos de uma guerra nuclear. Segundo ele, as baratas e a grama se sairiam bem. Em 1982, juntei- me a 1 milhão de pessoas no Central Park, em Nova York, pedindo o “congelamento” da corrida pelas armas nucleares. Em vão. Então, incrivelmente a União Soviética se dissolveu e a Guerra Fria terminou de maneira pacífica, diminuindo muito o risco de uma guerra em que milhares de ogivas seriam usadas. Os Estados Unidos têm hoje um presidente que declarou que o país e as outras nações deveriam – e podem – abolir todas as armas nucleares. Barack Obama deu um passo rumo a essa meta há alguns meses, quando ele e o russo Dmitry Medvedev concordaram em reduzir seus arsenais nucleares estratégicos de 2.200 ogivas cada um para 1.500. Por outro lado, mesmo após os cortes propostos, Estados Unidos e Rússia ainda terão, juntos, quase 20 mil ogivas. As outras potências nucleares – Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão e (quase certamente) Israel – possuem cerca de mil outras bombas. A Coreia do Norte testou alguns artefatos nucleares, suspeita-se que o Irã planeja construí-los, e a Al Qaeda espera obtê-los. Em 1984, o “Relógio do Juízo Final” do Boletim de Cientistas Atômicos, que mede quanto estamos próximos da “meia noite” do apocalipse nuclear, foi acertado para apenas três minutos para a meia-noite. Hoje, voltou para os seis minutos, mas muitos de nós diriam que é cedo para baixar a guarda. Uma guerra nuclear global que destrua a humanidade parece improvável agora, mas um ataque nuclear perpetrado por terroristas ou uma nação paria é mais possível do que nunca. Então, sim, chegamos longe, mas ainda temos muito caminho pela frente até podermos deixar de nos preocupar com a bomba. John Horgan é diretor do Center for Science Writings, no Stevens Institute of Technology, em Nova Jersey (EUA) |