CONHECER revela a incrível trajetória do velocista Adolphe Christiano Kliengelfoefer, o primeiro atleta brasileiro a participar, de fato, de uma edição dos Jogos Olímpicos
Antes de tal descoberta - que vamos explicar mais adiante -, acreditava-se que a primeira participação do Brasil em uma Olimpíada havia acontecido em 1920, na Antuérpia (Bélgica). A delegação de 21 atletas participou de cinco modalidades (natação, polo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro ao alvo) e voltou para casa com três medalhas: um ouro, uma prata e um bronze, todas conquistadas no tiro. Mas uma pesquisa feita pelo historiador francês Alain Bouille, especializado em esportes, reescreveu a história do nosso país nos Jogos Olímpicos. Os jogos de 1900, na verdade, não foram organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). O que houve foi uma grande bagunça esportiva em torno da Exposição Universal de Paris. Centenas de eventos foram programados paralelamente ao evento e o COI só organizou o quadro de medalhas desta edição mais de 100 anos depois, em 2004, e pediu a ajuda de dezenas de pesquisadores e historiadores olímpicos. Muitas modalidades bizarras (como corrida de balões, pescaria e gincana de bombeiros) foram excluídas desta contagem. As consideradas oficiais foram homologadas e os participantes tiveram seus nomes escritos devidamente nas páginas olímpicas. Foi então que Bouille fez o achado. Adolphe nasceu em Paris, em 1880, mas era filho de dois brasileiros: Adolf Vreidrich Klingelhoeffer, vice-cônsul do Brasil na França, e America de Gomensoro. Adolphe, no entanto, tinha cidadania brasileira e só viria a adquirir nacionalidade francesa nos anos 1940. Antes desta descoberta de Bouille, o atleta era considerado francês. Era. Adolphe Klingelhoeffer passou toda sua vida em Paris e desde cedo tomou gosto pelo esporte. Entre 1899 e 1904 ele conquistou seis títulos nacionais de atletismo (quatro nos 110m com barreiras e dois nos 400m com barreiras). Suas marcas eram incríveis e neste período ele quebrou dois recordes franceses nos 110m com barreiras e era dono de um dos melhores tempos mundiais nos 400m com barreiras. Além disso, Adolphe era um exímio jogador de rúgbi e fez parte do time do Racing Club de Paris, campeão nacional em 1902. Na final, inclusive, ele marcou um try, o equivalente ao gol deste esporte. Mas voltemos aos Jogos Olímpicos. Em 1900, Adolphe se inscreveu em três provas: 60m rasos, 200m rasos e 110m com barreiras. Àquela época, o COI aceitava inscrições independentes, ou seja, o atleta não precisaria ter vínculo com o comitê olímpico de seu país para participar. Na prova dos 60m ele foi eliminado logo na primeira eliminatória. Nos 200m ele foi eliminado na semifinal ao ser batido pelo americano Walter Tewksbury, que acabaria ficando com a medalha de ouro. Em sua especialidade, os 110m com barreiras, Adolphe também não se saiu bem e caiu também na primeira eliminatória. Terminava assim a primeira participação brasileira em uma Olimpíada. Adolphe continuou a brilhar no esporte e era reconhecidamente um herói do atletismo na França, sendo até capa de revista! Falar de atletismo sem falar de Adolphe Klingelhoeffer na França do início do século XX era impossível. Depois de largar as pistas, ele assumiu um alto posto na Câmara Brasileira do Comércio, cargo que exerceu até um pouco antes de sua morte, aos 76 anos, em 1956, em Paris. Adolphe certamente morreu sem saber de seu feito. Com a camiseta azul clara do Racing Club de Paris, ele pensou estar defendendo a França na Olimpíada de 1900. Apesar de não conquistar medalhas na pista, Adolphe alcançou algo ainda maior: foi o primeiro atleta a honrar o ideal olímpico pelo Brasil. FLÁVIO ALMEIDA é jornalista e colaborador da CONHECER |