Universo Solitário e Fragmentado

Novo livro de cientista brasileiro critica tentativas de unificar a física numa única teoria

Criação imperfeita
Marcelo Gleiser
Criao imperfeita
Por Marcelo Gleiser
Record, 368 pgs., R$ 49,90

O físico Marcelo Gleiser já é famoso por sua prosa envolvente na divulgação de intrincados temas científicos. Mas ele nunca se tornou tão pessoal quanto em seu último livro, Criação imperfeita.

A obra tem por objetivo explorar as características do Universo e criticar a visão, predominante hoje entre os físicos, de que é possível unificar todas as leis da Natureza numa única teoria.

“Neste livro, veremos que a crença numa teoria física que propõe uma unificação do mundo material – um código oculto da Natureza – é a versão científica da crença religiosa na unidade de todas as coisas”, escreve o cientista.

É uma cutucada das mais fortes na teoria das supercordas, que presume que o Universo é como é por ter dimensões invisíveis e cordas que vibram numa escala inobservável, produzindo as características das partículas e forças que observamos na Natureza.

Para Gleiser, o charme do Universo está em suas imperfeições, em sua assimetria, no fato de que há teorias físicas conflitantes, mas ambas capazes de produzir resultados precisos.

Apesar de exaltar a imperfeição cósmica, Gleiser também contesta a visão ateísta sustentada por alguns cientistas, como o biólogo britânico Richard Dawkins, segundo a qual essas “falhas de projeto” em diversos ramos da “Criação”, sobretudo na biologia, demonstram a inexistência de Deus.

Muito mais equilibrado e razoável, o físico brasileiro fundamenta seu mais novo trabalho nos resultados mais recentes obtidos pela ciência, mas mistura esse conteúdo a passagens de sua própria vida, numa tentativa humana de dar sentido ao Cosmos. “De forma completamente inesperada, minha busca científica levou-me a um novo modo de pensar sobre o que significa ser humano: a ciência tornou-se existencial”, escreve.

De todas as reflexões que faz, Gleiser extrai uma importante conclusão. Ao que tudo indica, estamos sós na imensidão do espaço (não que extraterrestres não existam, mas muito provavelmente estão fora de qualquer alcance), o que torna a responsabilidade humana ainda maior: cabe a nós preservar esse raro fenômeno que chamamos de vida e, se possível, espalhar essa semente pelo Universo.

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