O filme Avatar, de James Cameron, deu ao mundo um idioma completamente novo: o na´vi.
Andy Ridgway descobre como ele foi criado e o que os klingons têm a dizer sobre isso
Paul Frommer está sob imensa pressão. Ele é o acadêmico que inventou a língua usada pelas criaturas azuis na'vi no épico de ficção científica Avatar. Sua criação causou furor, e alguns entusiastas do idioma usado pelos habitantes da lua Pandora ficaram tão hipnotizados que querem aprendê-lo. Para já. O único problema é que não há muito o que saber. Existem as frases usadas no filme e algumas outras surgidas depois, somando um vocabulário de cerca de mil palavras. Mas uma crescente comunidade on-line clama por mais – mais palavras e gramática, de forma que se possam criar sentenças e conversar integralmente em na'vi. Os fãs têm dado o melhor de si para decifrar as regras gramaticais. Frommer criou um sistema complexo para determinar o que é correto e o que não é, e poucos sujeitos mais atentos foram capazes de decifrar algumas da fórmulas só de ouvir os diálogos do filme. Frommer, professor de comunicação da University of Southern California, também deu uma ajuda em fóruns on-line, fornecendo mais algumas pitadas de informação. Mas não é o suficiente. A pressão está se acumulando. Um abaixo-assinado em masempul.org – um dos diversos sites inspirados pela linguagem dos na'vi que surgiram desde o lançamento do filme – tem cerca de 3.800 inscritos, pedindo toda a gramática e um dicionário. “Você nos deu o tronco da árvore sagrada, mas muitos galhos estão faltando”, diz o apelo apaixonado, que termina com: “Você pode nos ver, Pai? Estamos esperando...”. E não é só isso. Frommer recebeu um documento de 79 páginas que detalha o pedido por gramática e palavras – categorizado em três níveis de prioridade. “Há um bocado de pressão, e eu adoraria contar para você que tenho todo o tempo do mundo para dedicar a isso, mas não tenho”, diz Frommer. “Tenho um emprego e outros compromissos, como aparições públicas.” Apesar disso, ele se dispõe a ajudar. A boa vontade, entretanto, não basta. Há entraves de ordem legal. Uma língua artificial criada para um filme que gera seguidores não é coisa nova. Até mesmo Frommer admite que o “padrão ouro” no ramo de “artlangs” (ou “línguas artificiais”) é o klingon. As primeiras emissões guturais do que seria a linguagem klingon apareceram no fi lme inicial da saga cinematográfica de Jornada nas estrelas (Star Trek), em 1979, quando James Doohan, o ator que interpretava Scotty, criou algumas poucas falas para os comandantes klingons. Para o terceiro filme, À procura de Spock (The search for Spock), o linguista Marc Okrand foi escalado para produzir mais falas usando as palavras criadas por Doohan como ponto de partida – e criar regras gramaticais conforme avançasse. Desde então, a língua ganhou vida própria. Okrand produziu dicionários para falantes de klingon e há até uma organização ofi cial, o Klingon Language Institute (KLI), situado na Pensilvânia, com 2.500 membros em 50 países. O instituto produz um periódico – HolQeD (“linguística” em klingon) – e organiza uma conferência anual de cinco dias, a qep'a' (“grande reunião”). Há traduções klingons de peças de Shakespeare, como Hamlet e Muito barulho por nada. Um trekker alemão, que atende pelo nome Klenginem, verteu letras do rapper Eminem para a língua da raça guerreira. O interesse em klingon foi uma grande surpresa até para seu criador. “É ao mesmo tempo lisonjeiro e assustador existirem pessoas falando por aí todas as coisas bobas que inventei”, diz Okrand. “Era de se esperar que o klingon despertasse interesse; a surpresa é as pessoas levarem tudo tão a sério.” |