Dias que mudaram o mundo

De tempos em tempos, nosso planeta se recupera da extinção de quase todas as formas de vida que o habitam. Poderia nossa sorte estar chegando ao fim? Robert Matthews investiga

(continuação)

Science Photo Library X2, Getty
Organismos como o crinoide foram praticamente extintos pela "grande morte"
Terra Bola de Neve
O planeta já foi totalmente congelado no passado?


No início deste ano, novas evidências surgiram para apoiar uma das afirmações já feitas sobre o passado da Terra: ela teria sido, em algum momento, totalmente coberta por gelo. Conhecida como Terra Bola de Neve, essa teoria começou a tomar forma no início dos anos 60, quando geólogos encontraram evidências de que, 700 milhões de anos atrás, as geleiras não estavam confinadas às regiões polares.

Por motivos ainda não totalmente compreendidos, a Terra era, na época, fria o suficiente para que as geleiras existissem mesmo nas regiões tropicais. Até tempos muito recentes, entretanto, havia dúvidas sobre se todo o planeta já fora alguma vez congelado por inteiro. Simulações feitas por computadores sugeriram que os oceanos armazenam uma quantidade alta demais do calor proveniente do Sol para permitir que o gelo se espalhe por todo o planeta.

Porém, no início deste ano, uma equipe liderada por Francis MacDonald, da Harvard University, publicou uma pesquisa confirmando que há 716 milhões de anos as geleiras se estendiam a até 10 graus do Equador – e que elas mantiveram essa extensão por pelo menos
5 milhões de anos.

A Explosão Cambriana
O surgimento de trilobitas, multicelulares e multípedes


Até cerca de 570 milhões de anos atrás, a maior parte da vida existente na Terra era composta por organismos unicelulares, como bactérias e algas. Então, em um período de apenas 30 milhões de anos, organismos muito mais complexos (como os trilobitas, um grupo de artrópodes agora extinto) repentinamente começaram a surgir. A causa dessa suposta explosão cambriana ainda é bastante discutida, mas acredita-se que o aumento da quantidade de oxigênio tenha sido um fator de grande importância, já que organismos maiores precisam de mais oxigênio para sobreviver.

De acordo com uma pesquisa publicada no ano passado por Paul Knauth, da Arizona State University, e por Martin Kennedy, da University of California, a explosão cambriana pode ter suas origens no “esverdeamento” da Terra, quando as primeiras formas de vida verdes, como algas e musgos, começaram a se espalhar pelas áreas continentais do planeta. Essas plantas teriam fixado carbono no solo, reduzindo a presença de dióxido de carbono na atmosfera. Ao mesmo tempo, elas teriam aumentado os níveis de oxigênio, impulsionando o processo chamado de grande evento de oxigenação.

Pesquisas recentes sugerem que outro elemento químico pode ter tido um papel relevante. Na crosta terrestre há fósforo, e, de acordo com Dominic Papineau, da Carnegie Institution for Science, no Canadá, altos níveis desse elemento alcançaram os oceanos pouco antes da explosão cambriana. Ao estimular o crescimento de algas e de outras plantas, o fósforo teria acelerado a elevação dos níveis de oxigênio.

Essas mudanças podem ajudar a explicar também a impressionante variedade de formas corporais surgidas durante a explosão cambriana, uma vez que oxigênio e fósforo estão envolvidos na criação de ossos e tecidos. Os resultados foram espetaculares, variando dos conhecidos trilobitas a criaturas bizarras como a opabínia de
cinco olhos ou a Hallucigenia multípede.

A Extinção Permiana
O evento que quase eliminou a vida na Terra


Durante os aproximados 600 milhões de anos em que a vida complexa existe na Terra, ela sofreu não menos do que cinco grandes extinções – períodos em que grandes números de espécies deixaram de existir por causa de catástrofes globais. A mais conhecida delas é a suposta extinção do Cretáceo-Terciário, ocorrida há 65 milhões de anos e famosa por ter levado os dinossauros à extinção. Porém, esse não foi o golpe mais devastador contra a vida em nosso planeta.

O maior deles teria ocorrido 251 milhões de anos antes, com a extinção permianotriássica – a “grande morte” – que levou ao desaparecimento de 90% das espécies marinhas e de aproximadamente 75% das espécies terrestres. Muitas teorias foram criadas, variando de impactos com cometas a mudanças climáticas. Porém, em abril, uma equipe liderada pelo geólogo Jonathan Payne, da Stanford University, na Califórnia, publicou uma pesquisa sugerindo que a mais provável explicação para o evento seja a acidificação dos oceanos, causada pelo dióxido de carbono dissolvido a partir de erupções vulcânicas maciças ocorridas no que hoje é a Sibéria.

Robert Matthews

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