A Ciência começa a revelar a fascinante realidade por trás da polêmica que se acirrou ao longo dos séculos: como nos tornamos quem somos?
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Em meados dos anos 1990, o mundo acadêmico finalmente pareceu ter chegado à mesma conclusão que o público: que o comportamento humano é uma mistura de genética com ambiente e simples acaso. Em 1998, a psicóloga americana Judith Rich Harris publicou The Nurture Assumption (A hipótese da Criação), um best-seller que oferece base científica para aquilo que os pais já desconfiavam: que suas habilidades como pais tinham um efeito relativamente pequeno sobre o que seus filhos se tornariam. Ao mesmo tempo, as pesquisas genéticas revelavam evidências cada vez mais fortes de que os genes e o ambiente interagem, ridicularizando a tradicional dicotomia que haveria entre eles. Cada vez mais, os estudos mostram que não é somente a existência de um gene que importa, mas sim como ele se manifesta e qual sua disposição para receber influências. Por exemplo, foi descoberto que o comportamento monogâmico de um roedor típico da América do Norte (Microtus ochrogaster) está relacionado a uma mutação genética que torna seu cérebro sensível à vasopressina, um hormônio que é liberado durante o sexo. Ao que parece, há um gene que os torna viciados nesse hormônio, o que os leva a permanecer com o mesmo parceiro. Mas a maneira como os genes atuam também pode ser afetada por influências externas. Em outros experimentos com ratos, pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá, mostraram que os níveis hormonais dos roedores que receberam mais atenção da mãe quando jovens foram menos afetados pelo estresse do que aqueles negligenciados. Em outras palavras, a expressão do mesmo hormônio relacionado aos genes mudou de acordo com a forma com que o indivíduo foi criado. Ao alterar bioquimicamente a forma como o gene se manifesta, a equipe concluiu que era possível fazer ratos mais tranquilos ficarem estressados e vice-versa. A experiência traz à tona a intrigante hipótese de que os efeitos negativos de uma criação problemática possam ser revertidos na vida adulta. As chamadas conexões epigenéticas também foram encontradas em humanos com vários traços de personalidade, desde sintomas de depressão e esquizofrenia, a orientações política e sexual. O que parece ainda mais impressionante é o fato de cientistas terem encontrado recentemente evidências para a teoria de Darwin sobre o papel da genética e do ambiente na aquisição da fala. Pesquisadores descobriram que o gene chamado de FOXP2 está relacionado à capacidade de aprender a falar. Ter o gene não é suficiente: é preciso ter a variável certa e expressa de forma correta. Todos os humanos possuem esse gene, que é essencial para aprender o idioma falado por outros humanos ao seu redor. Levou mais de um século, mas parece que finalmente o debate hereditariedade versus ambiente passou a ser compreendido pelo que de fato é: uma falsa dicotomia. Ao menos ele serviu para destacar o perigo que é atribuir o monopólio da verdade a um dos lados de um debate científico. Robert Matthews é jornalista científico e estudante visitante na Universidade de Ciência de Aston, no Reino Unido (www.robertmatthews.org). |