A personalidade está escrita no DNA?

A Ciência começa a revelar a fascinante realidade por trás da polêmica que se acirrou ao longo dos séculos: como nos tornamos quem somos?

(continuação)

A opinião de Balfour se mostrou previdente em ambos os aspectos. Nos Estados Unidos, a visão eugênica se espalhou como rastilho de pólvora.  Um ano após o discurso de Leonard Darwin, muitos estados haviam aprovado leis que permitiam a esterilização compulsória de pessoas diagnosticadas com problemas mentais. A campanha foi observada por eugenistas na Alemanha, que introduziram práticas parecidas meses depois de os nazistas chegarem ao poder, em 1933.  O que começou com a esterilização de milhares de pessoas sintomas de esquizofrenia chegaria ao ápice com a morte de milhões de judeus em campos de extermínio, como Auschwitz.

A derrota dos nazistas em 1945 e o consequente repúdio mundial a suas práticas levaram a discussão de volta à fase anterior. Mais uma vez, os teóricos apresentaram argumentos que pareciam baseados em rigorosas pesquisas científicas. E mais uma vez as conclusões ignoraram solenemente a complexidade do tema.

Durante os anos 1920, o psicólogo Americano John B Watson afirmou que toda a conversa em torno dos traços de personalidade era inútil e que as pesquisas deveriam se concentrar em como o homem reage ao ambiente externo. Isto provaria, segundo ele, que todo ser humano é capaz de tudo. Watson e seus discípulos reuniram farta evidência para apoiar seus argumentos – muitos deles definitivamente excêntricos. Ainda mais estranha foi a incapacidade dos behavioristas de perceber que, apesar de suas pesquisas serem consistentes em relação à influência do meio no comportamento humano, elas nada contribuíam para determinar o papel de outros fatores, como a genética.

A relevância de elementos que além do meio ambiente foram demonstradas visualmente em experimentos polêmicos realizados nos anos 1950, na Universidade de Wisconsin-Madison. O psicólogo Harry Harlow separou filhotes de macacos de suas mães, substituindo-as por duas bonecas: uma feita de metal e portando uma garrafa de leite, e outra mais aconchegante e parecida com a mãe, porém sem leite algum.

De acordo com os behavioristas, os macacos deveriam aprender rapidamente a ignorar a frieza da mãe metálica e tentado extrair o leite de que precisavam. Mas Harlow descobriu que os macacos passavam a maior parte do tempo no colo da boneca mais aconchegante, fazendo pausas rápidas para beber o leite da mãe metálica quando estavam com fome. Harlow mostrou o que a maioria das pessoas – exceto os behavioristas – consideraria óbvio; o comportamento é moldado por algo além do ambiente. Os macacos sabiam por instinto como identificar mãe que deveria alimentá-los e foram a sua procura.

As evidências de comportamentos inatos descobertas por Harlow aconteceram numa época em que ambos os lados da controvérsia exerciam profunda influência em pais e filhos.  Behavioristas escreveram manuais sobre cuidados com as crianças nos quais insistiam que excesso de beijos de boa noite ou de colo poderiam deixar as crianças fracas. Enquanto isso, os estudos sobre a hereditariedade mudavam os rumos da política educacional britânica.

Pesquisas com gêmeos idênticos diziam que a inteligência era preponderantemente hereditária, sugerindo que os recursos da área deveriam ser investidos naquelas crianças que desde cedo se mostrassem mais promissoras. No Reino unido, este estudo levou à adoção do “11-plus”, o polêmico teste nacional que visava a selecionar crianças de 11 anos para a formação acadêmica.

Anos depois, os estudos com gêmeos idênticos que fundamentava essa política foram considerados suspeitos, mas então, a afirmação de que os genes definiam as características do ser humano já havia perdido muito de seu poder, pelo menos fora do meio acadêmico.

A essa altura, os pais já haviam identificado que, por mais que se esforçassem, seus filhos adquiriam personalidades completamente distintas, que pareciam não ter sido determinadas genética, tampouco pelo ambiente.

Entre os cientistas, o debate continuou. Em 1975, o entomologista especializado em formigas Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, publicou o livro Sociobiology (Sociobiologia), no qual argumentava que os genes podem sozinhos produzir comportamentos complexos. Entretanto, ele tentou estender sua pesquisa a seres humanos e provocou muita polêmica, já que podia ressuscitar o determinismo genético, com seus exageros eugênicos. Ainda assim, os cientistas continuaram a afirmar que havia evidências da influência dos genes em comportamentos que vão da orientação sexual até à escolha da carreira.



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