A Ciência começa a revelar a fascinante realidade por trás da polêmica que se acirrou ao longo dos séculos: como nos tornamos quem somos?
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A reação ao determinismo genético, por sua vez, também produziu seus próprios excessos. A crença de que os seres humanos são “folhas em branco”, cujo futuro é determinado inteiramente pelo ambiente, resultou em teorias bizarras sobre a melhor forma de educar as crianças e pais com enorme sentimento de culpa por se acharem responsáveis por todos os fracassos de seus rebentos. Ironicamente, os pioneiros do debate natureza versus cultura acreditam ter as melhores intenções para a sociedade. Quando, em 1690, o filósofo inglês John Locke lançou a ideia de “tabula rasa” em seu célebre “Ensaio Acerca do Entendimento Humano”, ele acreditava estar lutando contra conceitos repressores, como o pecado orginal e o direito divino. Se todos os homens nascem iguais, argumentava, então todos podem e devem ter o mesmo direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Essa visão impressionou Thomas Jefferson, o principal arquiteto da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Da mesma forma, quando os intelectuais vitorianos Herbert Spencer e Francis Galton associaram a Teoria da Evolução de Charles Darwin ao estudo da sociedade, eles acreditavam agir em prol do bem comum. Contudo, até então os genes não haviam sido identificados. O próprio Darwin tinha uma visão mais sofisticada a respeito da herança natural do que seus seguidores. De fato, ele acreditava que a fala era um exemplo do instinto natural do ser humano para adquirir uma habilidade. Alguns dos contemporâneos de Darwin viam armadilhas sorrateiras na célebre tese de Spencer de que a evolução é a sobrevivência dos mais bem adaptados, e no conceito, criado por Galton, de eugenia – a sistemática melhora da raça humana por meio da reprodução seletiva. Ainda assim, muitos pensadores deixaram os escrúpulos de lado, sob alegação de que os fatos falavam por si. Em 1865, Galton publicou um estudo em que afirmou que a taxa de sucesso de crianças de famílias aristocráticas era 240 vezes maior do que a de crianças plebeias, concluindo que as primeiras eram superiores. Uma década mais tarde, Galton deu sequência a sua teoria, e ao elaborar estudos baseados na comparação de gêmeos idênticos, criou um manancial de argumentos para a polêmica. Tantas foram as semelhanças encontradas entre os gêmeos idênticos ao longo de suas vidas que o filósofo acreditava não haver o que discutir: a genética prevalecia sobre o meio; logo, a reprodução seletiva era o caminho para a evolução da sociedade. Esta crença foi compartilhada por muitos dos participantes do Primeiro Congresso Internacional de Eugenia, realizado em Londres, em 1912. Entre eles estava Leonard Darwin, filho do autor de “A Evolução das Espécies”. Como presidente da Eugenics Society (entidade para promoção da eugenia), ele defendeu que era uma ameaça para as novas gerações que pessoas menos aptas se reproduzissem. Vozes dissidentes foram ouvidas. O ex-primeiro-ministro britânico Arthur Balfour fez um discurso no qual revelou sua preocupação. Ele defendeu que a hereditariedade era questão mais complexa do que imaginavam os cientistas e alertou que a eugenia poderia ser usada por fanáticos para impor sua visão de mundo. |